quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um certo "para sempre"


O meu "para sempre" era real.
Ele não se cumpriu, mas ele era real.
Ele teve um fim,
mas o meu "para sempre",
ele permaneceu.

Meu "para sempre" fez-se real.
Ele me convenceu de sua existência 
Toda cheia de previsões e de prescrições,
tantas certezas oferecem um certo "para sempre"!

Como foi que meu "para sempre" se fez real e se acabou?
Vejamos:
explicações retalhadas foram, uma a uma, costuradas umas às outras com uma linha frágil que se rompeu.
E aí, eis que ele pareceu não acabar jamais.

Mas sabe aquele meu "para sempre"?
Ele morreu.
Existe ainda, pois é "para sempre", mas não toma todo o meu tempo!

sábado, 3 de setembro de 2011

Errata

Me devo uma correção.
Ao dizer que "meu amor,
maior que eu, maior que a dor, me superou" 
Eu menti, uma mentira tola.
Minha cegueira insistente me fez desonesta.
Alterei meu próprio ato incontido, tão falho quanto um tique. 
Ignorei a ressaca de um amor morto.


Tentando trazê-lo de volta à vida,
modifiquei meu texto original.
Manipulei palavras.
Traí fontes. 
Neguei minha própria experiência.


E assim, onde se lê "maior que eu, maior que a dor",
por favor, uma advertência:
eis a errata da minha alma traída, que corrige: 
maior que eu, "menor" que a dor.
Agora sim. 





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Meus limites

Discorrendo sobre limites necessários
pois que produzidos por dores incalculáveis
maiores que expectativas ingênuas
frutos de minha experiência irrevogável

Indeferem pedidos de defesa
Sem que sejam evocadas legalidades
(de  um Código qualquer, Artigos ou parágrafos únicos)
Meus limites têm raízes consuetudinárias
São legítimos, são meus.

Meus limites impõem fronteiras
que, embora não existam em essência, existem de fato
Me resguardam o direito à propriedade privada de mim
Inviolável não por escritura, mas por individualidade
esta minha propriedade não permite ingressos de outrem


Mas nem sempre foi assim,
Na verdade, meus limites se mostraram  a mim
num inesquecível e nada qualquer dia de ontem

E desde então me garantem meu espaço
indivisível, intransponível e não compartilhado.
Esses meus limites são, por assim dizer e com todos os cuidados,
a garantia de um espaço sagrado.





domingo, 7 de agosto de 2011

O meu fracasso

Não é meu o jargão sei do que sou capaz.
O que na verdade eu posso dizer é que “sei do que não fui capaz”.
Isto sim é inequívoco, preciso.
E isto é o meu próprio fracasso.

Mas o meu fracasso tem um sabor doce, quando tenho vontade de doce, e salgado quando quero o contrário.
Meu fracasso fundamenta minha certeza.
Meu fracasso, em retrospectiva, me apresenta um passado rico em sinais contra os quais lutei bravamente, porém sem sucesso.
Meu fracasso, hoje, dorme e acorda comigo.
relativizado e subvertido
Me dá beijos de “bom dia”
Meu fracasso resignou-se em reconhecer
Que não se supera o amor, quando ele existe.
Pois meu fracasso me mostrou
Que meu amor, maior que eu, maior que a dor,
Em longo estágio de vigília
Me superou.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Senha

Eu disse, não disse?
Aquela data significativa
dia a dia na memória,
mês a mês comemorada,
se esvaziou.
E na dinâmica da cidade,
no pragmatismo eletrônico
Que irônico!
Nada mais que uma senha
Uma senha de cartão de Banco.

sábado, 26 de março de 2011

o hábito que me veste a mudança

Mudei os móveis de lugar
Os quadros migraram de paredes
As cores são outras
E com elas as vistas das janelas
De cá avisto o horizonte
Plano, verde, distante.
Ah, a rua também é outra
Mudei de endereço
Mudei, portanto, o lugar de onde vejo
Aqui só entra quem eu quero

Também há portões que me libertam
De todos eles tenho as chaves
Se eu quiser eu fico
Se eu quiser eu saio
E quanto ao "quando", menina,
sou eu e ninguém mais quem determina

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sábado

Dia chuvoso
Tarde de silêncio
Noite fria e mais extensa que as outras
Domingo tedioso
Como tediosa às vezes se mostra a vida
Sinto-me apegada ao sábado
ao fim de tarde de sábado da vida
Gostaria que amanhã fosse novamente sábado
Não qualquer sábado
Mas o fim de tarde de sábado da vida.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Meu Antiquário involuntário

expondo, guardando,
colecionando, somando

valorizado
estimado
disputado

com o tempo

envelhecido
esquecido e
sem cuidados,
carcomido
e enferrujado

tanto mais
corroído
e sem valor

poderia eu
querendo-te preservado
restaurar-te?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pela frente, pelo verso, com as palavras

Nos seus braços vivi a mais bela e pura surpresa e leveza do amor invasor
Seu cheiro e voz e toque e suspiro e silêncio, a serenidade me trouxeram 
Minha loucura de antes, dissipada pela toada deste encanto, fora desapropriada como quem mais não tem morada. 
E ao seu lado fui sendo. Inédita, entregue, absoluta. Sua.
Me desfiz dos medos e receios como quem se desfaz das roupas velhas que não mais lhe servem e apenas inutilizam um espaço no armário.
Me doei, me fiz, me recriei. Tudo isso ao seu lado, sob e sobre você, pela frente e pelo verso.
Sem remorso, sem dúvida e sem protesto. 

O abismo criado pelo seu não me fora tão invasor quanto o amor de outrora. 
Um e outro sentidos com a mesma intensidade e verdade me trouxe e me levou a sanidade.
Minha loucura então dissipada, novamente me arrebatou o espírito e eu chorei. Chorei de dor, de desencanto, de desespero, de perplexidade, de desamparo. Não acreditei, não pude, não quis. Chorei pelo abandono. Por várias vezes perdi a fome, o sono e o desejo de ser, de ser sem você.

Com o instinto de quem se agarra à vida me refiz. Como um réptil me arrastei e, me esfregando em pedras e chão áspero e hostil, troquei de pele, de cor e de dor. Esta agora doía como a dor da cura, lenta, diária e promissora.  
Não sei bem de quais promessas me apropriei. Sei que o fiz. E se hoje me olho e me gosto é porque em cada trecho do caminho reconheci mais que um itinerário, mais que um destino.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma certa dor!

Dor de amor é como queimadura
É de fora que nos toca, mas é por dentro que devora
O quanto dura e o tempo da cura
Se são dias ou se são horas
Se é rápido ou se demora
é bom mesmo que vá embora!