quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O gosto da bebida doce



O gosto da bebida doce
do cigarro aceso
do enroscar do gato
O gosto de casa,
da minha vida
O gosto da escolha
 e da vontade, 
O gosto da existência
O gosto da conversa com a amiga
do compartilhar dos versos
O gosto do abrigo
O gosto do abraço
O gosto amigo
e familiar
O gosto do afago
Por todo gosto
Que como esses
Me fazem agrados

Muito gosto!

Obrigada!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Deslo(u)camento

Quando chego já quero voltar.
Quando acordo neste lugar
é do lado de lá que desejo despertar.
Quando me deito
é  a minha cama que quero.
Quando falo
são ouvidos atentos que, em vão,
espero encontrar.
Quando me calo,
é o conforto dos outros
o que crio.
Quando me visto,
são olhares distantes os que recebo.
E quando me dispo,
parece difícil me olhar,
quando me enxergam.
Quando é hora de ir embora
é saudade de tudo o que tenho.
Uma saudade sem nome,
sem razão e sem fonte.
Quando retorno,
não sei mais de onde vim.
Pois assim se faz meu ir e vir
neste espaço confuso e distante
onde jamais vivi.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

À lesbica léxica e límbica


Curiosamente
quando digito a palavra “lesbica” sem acento no Word
 as opções de correção ortográfica se restringem a duas
 e nenhuma delas alude à “lésbica” com acento
Invisibilizada, as opções para ela são “léxica” e “límbica”
Assim é a “lesbica” sem acento: léxica e límbica.
A lesbica léxica traz em si seu próprio vocabulário
 E também o significado de suas relações
 uma vez que é dicionário de si mesma.
E como sentido e significado de si mesma
 a lesbica é límbica literal e figurativamente
É marginal, é vaga,
 mas é também a parte estendida das sépalas
 que, em conjunto, formam o cálice da flor.
Seria a lesbica léxica e límbica por um simples equivoco ortográfico?
Estivesse lá o acento agudo e fálico, e a lesbica quiçá fosse outra coisa!
Mas... ultimamente
 não se tem dado tanta atenção assim aos acentos
 Talvez e em parte porque o sentido é sobretudo léxico
E como léxico não se restringe à escrita da Palavra

sábado, 8 de setembro de 2012

Ato falho em cores

Tomada por uma necessidade de desenhar ou colorir, ou ambos,
rapidamente peguei papel e lápis diversos.
Em princípio, pensei, uma árvore! Eis o que quero pintar, uma árvore.
Os primeiros traços indicavam uma árvore em movimento. A árvore era uma,
pequena e de galho solitário. 
Depois dela as folhas. As que se soltavam pareciam em numero maior do que as que permaneciam.
Não me contentei. Queria uma árvore maior, maior que o movimento. Queria uma árvore soberana.
Sujeita ao movimento, de raízes frágeis, mas firme.
Acrescentei folhas e galhos. Alarguei o tronco. Intensifiquei o movimento.
E as águas insistentemente corriam em direção oposta ao vento. 
E os movimentos eram muitos. O movimento das águas, das folhas, do vento, da areia. Cada qual na cadência de uma sua musicalidade.
Sem lógica natural, os movimentos pareceram irreais, apesar de atribuírem
vida e naturalidade à imagem.
Findos os traços, parcialmente intencionais e absolutamente incontidos,
eis que a árvore se revelou para mim. 





quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um certo "para sempre"


O meu "para sempre" era real.
Ele não se cumpriu, mas ele era real.
Ele teve um fim,
mas o meu "para sempre",
ele permaneceu.

Meu "para sempre" fez-se real.
Ele me convenceu de sua existência 
Toda cheia de previsões e de prescrições,
tantas certezas oferecem um certo "para sempre"!

Como foi que meu "para sempre" se fez real e se acabou?
Vejamos:
explicações retalhadas foram, uma a uma, costuradas umas às outras com uma linha frágil que se rompeu.
E aí, eis que ele pareceu não acabar jamais.

Mas sabe aquele meu "para sempre"?
Ele morreu.
Existe ainda, pois é "para sempre", mas não toma todo o meu tempo!

sábado, 3 de setembro de 2011

Errata

Me devo uma correção.
Ao dizer que "meu amor,
maior que eu, maior que a dor, me superou" 
Eu menti, uma mentira tola.
Minha cegueira insistente me fez desonesta.
Alterei meu próprio ato incontido, tão falho quanto um tique. 
Ignorei a ressaca de um amor morto.


Tentando trazê-lo de volta à vida,
modifiquei meu texto original.
Manipulei palavras.
Traí fontes. 
Neguei minha própria experiência.


E assim, onde se lê "maior que eu, maior que a dor",
por favor, uma advertência:
eis a errata da minha alma traída, que corrige: 
maior que eu, "menor" que a dor.
Agora sim. 





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Meus limites

Discorrendo sobre limites necessários
pois que produzidos por dores incalculáveis
maiores que expectativas ingênuas
frutos de minha experiência irrevogável

Indeferem pedidos de defesa
Sem que sejam evocadas legalidades
(de  um Código qualquer, Artigos ou parágrafos únicos)
Meus limites têm raízes consuetudinárias
São legítimos, são meus.

Meus limites impõem fronteiras
que, embora não existam em essência, existem de fato
Me resguardam o direito à propriedade privada de mim
Inviolável não por escritura, mas por individualidade
esta minha propriedade não permite ingressos de outrem


Mas nem sempre foi assim,
Na verdade, meus limites se mostraram  a mim
num inesquecível e nada qualquer dia de ontem

E desde então me garantem meu espaço
indivisível, intransponível e não compartilhado.
Esses meus limites são, por assim dizer e com todos os cuidados,
a garantia de um espaço sagrado.





domingo, 7 de agosto de 2011

O meu fracasso

Não é meu o jargão sei do que sou capaz.
O que na verdade eu posso dizer é que “sei do que não fui capaz”.
Isto sim é inequívoco, preciso.
E isto é o meu próprio fracasso.

Mas o meu fracasso tem um sabor doce, quando tenho vontade de doce, e salgado quando quero o contrário.
Meu fracasso fundamenta minha certeza.
Meu fracasso, em retrospectiva, me apresenta um passado rico em sinais contra os quais lutei bravamente, porém sem sucesso.
Meu fracasso, hoje, dorme e acorda comigo.
relativizado e subvertido
Me dá beijos de “bom dia”
Meu fracasso resignou-se em reconhecer
Que não se supera o amor, quando ele existe.
Pois meu fracasso me mostrou
Que meu amor, maior que eu, maior que a dor,
Em longo estágio de vigília
Me superou.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Senha

Eu disse, não disse?
Aquela data significativa
dia a dia na memória,
mês a mês comemorada,
se esvaziou.
E na dinâmica da cidade,
no pragmatismo eletrônico
Que irônico!
Nada mais que uma senha
Uma senha de cartão de Banco.